Litost manauara

Manaus de muitos amantes e poucos amores
Quantos serão quando as joias virarem fumaça?
Os poucos que gozam se vestem e se afastam de ti
Filhos nascidos sem sobrenome dormem na praça

Cabocla atirada que engorda de costas pro rio
Mantém a fachada e esconde o pó das visitas
Penhora teu nome e enche de adornos a casa

Tua pele imperfeita se cobre de seda importada
Os pés são de várzea
Os olhos de Liverpool

Quantas vazantes terás que viver antes que aprenda?
O frio desse chão de cimento queimado não é teu sustento

Quem te navega é o ritmo lento que empurra essas águas
O banzeiro das horas
O passado em tormenta

A fumaça sem dono

De tempos em tempos Manaus é acometida por um fenômeno de origem sobrenatural. A cidade inteira é coberta por uma fumaça espessa trazida por ventos misteriosos oriundos das matas. A fumaça não tem origem neste mundo. Ao contrário, surge da magia que brota da floresta e alimenta seus espíritos guardiões. Ela não tem dono e nem responsável – é, por assim dizer, uma fumaça de todos.

Governo e prefeitura, de mãos atadas diante da magnitude deste poder arcano, fazem o melhor que podem: culpam os estados vizinhos, dão dicas de convívio pacífico com o fumo e fazem campanhas de conscientização para que a população não faça queimadas. Não se sabe ao certo, mas parece que os montes de lixo e folhas secas que velhas senhoras queimam em seus quintais têm algo a ver com o fenômeno.

A possibilidade de que o crescimento da monocultura e da criação bovina (juntamente com a exploração da madeira e a expansão urbana forçada) tenham a ver com isso já foi descartada. Sabe-se que o estado é um exemplo em índices de desmatamento e as ocorrências deste tipo são tão raras que boa parte da verba para monitorá-las foi justificadamente cortada.

A floresta que circunda a aldeia é intacta, religiosamente respeitada, mas ainda assim insiste em tratar seus vizinhos com tal vileza. A fumaça que surge do nada é um presente dela para o povo que habita suas margens, talvez lembrança tirana de seu imenso poder.

Ofertamos o melhor de nossa terra sobre o altar do progresso, mas ele parece rejeitá-la. A fumaça do holocausto não sobe aos céus, e paira permanentemente sobre nossas cabeças como uma praga divina.

Somniare humanum est

Um dia os igarapés serão desaterrados
e as águas voltarão a invadir nossos dias.

Decoraremos seu ciclo de altos e baixos,
conheceremos um ao outro e seremos um.

Um dia as árvores voltarão a morar nas calçadas
e nosso caminho será pavimentado por flores rosas de jambeiro.

Maracanãs e suins-de-coleira comerão daqueles frutos
e atravessarão ruas pacatas rumo aos castanhais que florejam.

Um dia a vista do rio será desempatada
e as margens do Negro fervilharão de cor.

O presente assumirá seu passado e viveremos em paz
ao lado do que sobrou.

Um dia serão apenas duas rodas, lentas e leves
como canoas de aço.

A distância não será mais um problema,
pois viveremos juntos em casas arejadas.

Nesse dia não reclamaremos mais do sol,
pois o calor será temperado pelas sombras das mangueiras.

As buzinas e motores darão lugar ao som do silêncio morno que vem dos beiradões do Tarumã-Açu
e o cheiro do tucupi fervido no alho escapará de janela em janela.

Sentaremos no alto dos morrinhos de barro e dali poderemos ver a terra que nos foi prometida,
deitada numa cama de mato sonhando com o dia em que será feliz.

A dor dos outros

Hoje foi executado na Indonésia o brasileiro Marco Archer, preso há mais de dez anos por contrabando de drogas. A pena foi aplicada a despeito das intervenções do Itamaraty e de pedidos de clemência da própria presidenta Dilma Roussef ao presidente indonésio.

Era de se esperar alguma comoção entre os brasileiros diante da aplicação da pena de morte a um conterrâneo em um país estrangeiro, mas os comentários mais frequentes sobre o caso apenas apontavam o dedo e diziam bem feito.

A primeira vez em que eu tive contato com a história de Marco foi em 2012, quando trabalhava no núcleo de rede da TV Amazonas. O jornal indonésio Jakarta Post deu a notícia de que ele seria executado ainda aquele ano e o Fantástico pediu para falarmos com a tia dele, que mora em Manaus.

Membro da família que já esteve entre as mais ricas da cidade, os Archer Pinto, Maria de Lourdes é a única pessoa no mundo que se importava com o sobrinho Marco. Sua mãe e pai faleceram há alguns anos e coube à tia o triste destino de levar sua última refeição, acompanhá-lo em direção ao local da execução e trasladar seu corpo de volta para o Brasil.

Quando falei com ela, Maria de Lourdes estava profundamente abalada e não parou de chorar a conversa toda. Ela contou que o sobrinho tinha feito uma dívida muito grande com um hospital em Singapura por causa de um acidente que sofreu e era constantemente cobrado, por isso aceitou transportar a droga. Disse também que Marco tinha um telefone clandestino e que só ligava em datas específicas para evitar que o aparelho fosse recolhido. Os dois haviam combinado que quando ele ligasse fora das datas era porque seria executado. Por anos ela esperou e se preparou para o dia em que o telefone tocasse.

Na época, Maria de Lourdes não quis gravar entrevista e não sei se vai falar agora. Marco esteve incomunicável desde que foi transferido para um presídio de segurança máxima, a não ser pelo telefone clandestino. Uma reportagem da época fala de regalias que ele teria na prisão, mas que acabaram no novo presídio. Sua história foi contada por terceiros e nem ele, nem a tia jamais expuseram ao mundo a dor que sentiam. Mas se tivessem falado, alguma coisa mudaria?

Certamente não no Brasil, em que estamos tão acostumados com a pena de morte por tráfico de drogas que mais um brasileiro executado não faz a menor diferença. Aliás, assim como os que morrem como moscas nos confrontos com a polícia por aqui, esse mereceu o castigo que teve.

Cada vez que uma pessoa é assassinada, todos morremos um pouco junto com ela. Talvez os comentários favoráveis à execução de Marco demonstrem mais que simplesmente a nossa falta de compaixão. Talvez eles sejam os epitáfios de nossa humanidade.

Dies Irae

Na última quarta-feira, dois homens provavelmente movidos por fervor religioso entraram na redação de uma revista humorística francesa e mataram 12 pessoas sob a aparente justificativa de vingar as charges feitas pela publicação contra o islã.

Entre as reações sobre o ocorrido, além da unânime condenação dos assassinatos, sobravam ataques à “religião” e alguns tantos contra o Islã e sua suposta natureza violenta. Como pode alguém ser capaz de matar em nome de uma fé religiosa? Como as religiões, que deveriam expressar e incentivar o melhor do espírito humano, podem ser capazes de justificar atos como esse?

Durante a maior parte da história, a religião ocupou um papel central na cultura e organização das sociedades humanas. No Ocidente, o Iluminismo separou Igreja e Estado, dando origem a uma nova ética humanista pautada em valores e direitos que independem de fé religiosa ou crenças sobrenaturais.

No entanto, a fé religiosa é uma expressão fundamental do pensamento humano e, mesmo quando não tem poder político direto, continua influenciando modos de vida e formas de pensar ao redor do mundo. Mesmo nas democracias liberais, como o Brasil, seus líderes chegam a formar frentes políticas que desafiam o próprio estado e seus princípios de laicidade e igualdade.

Em lugares que não viveram o Iluminismo da mesma maneira que a Europa e suas colônias, os limites entre religião, identidade e cultura ainda não são claramente estabelecidos. Este é o caso de muitos países muçulmanos, em que identidade nacional e religião são quase indissociáveis e o fundamentalismo se alimenta da miséria e das agressões externas.

No entanto, a maioria de nós ignora que um árabe muçulmano tunisiano, país onde teve início a “Primavera Árabe”, pode ter mais semelhanças com um muçulmano curdo que resiste de um lado ao Estado Islâmico e de outro à guerra civil na Síria do que com outro árabe que vive em um país sob interpretação restrita da lei islâmica. Assim como qualquer outra religião, o Islã se manifesta de várias maneiras, dependendo do contexto e tradição em que seus praticantes estão inseridos.

É preciso entender que a nossa relação com as crenças religiosas é e sempre foi relativista. Nós escolhemos quais aspectos da religião vamos aceitar e quais serão ignorados ou ressignificados. Apesar de serem corpos mais ou menos unificado de crenças e valores, nenhuma religião jamais gozou de unanimidade e todas se modificaram bastante ao longo do tempo.

Como eu disse antes, o iluminismo trouxe uma nova ética humanista pautada em valores e direitos que independem de fé religiosa e é o compromisso com essa ética que define nosso comportamento em relação às religiões que nós abraçamos. Alguns destes valores estão plenamente difundidos, por isso não vemos mais judeus, cristãos e muçulmanos em países laicos defendendo a morte de pecadores. Outros ainda caminham para a plena aceitação, como é o caso das liberdades de sexualidade e gênero, que enfrentam resistência mesmo em países laicos.

Jesus andava entre ladrões e prostitutas pregando o amor e disse que não veio para converter os justos, mas os pecadores. Apesar disso, um padre negro que trazia jovens usuários de drogas para a igreja criou uma comoção em sua paróquia no interior de São Paulo e teve que ser transferido. Jesus também disse que quando um homem se divorcia de uma mulher e se casa com outra, ambos cometem adultério. Mesmo assim, o pastor Silas Malafaia celebrou o terceiro casamento de Jair Bolsonaro, ambos grandes defensores do fundamentalismo cristão.

Em contrapartida, vemos a mesma Igreja Católica que levou a cabo a Inquisição e as Cruzadas apresentar exemplos magníficos de amor e caridade, como o trabalho da Pastoral do Imigrante com os haitianos e outros imigrantes que chegam ao Brasil sem ter para onde ir ou o compromisso da Pastoral da Terra e do Conselho Indigenista Missionário com a defesa dos direitos dos camponeses e dos índios.

Nossas ações, independente de religião, é que definem se somos bons ou maus humanos. Estas ações podem manifestar diferentes aspectos da crença que abraçamos e até mesmo utilizá-la para justificar atos de crueldade ou compaixão. No entanto, bem e mal são valores aprendidos e que podem ser inculcados desde cedo através da educação e reflexão.

Mas como esperar que tal compromisso com liberdades e direitos humanos esteja presente em povos historicamente colonizados, agredidos, discriminados e desprezados? Livros como Uma História dos Povos Árabes, de Albert Hourani, e Orientalismo, de Edward Said, mostram que o que hoje nós chamamos de “mundo árabe” já foi mais rico e esteve intelectualmente muito à frente do Ocidente, embora sempre tenha sido retratado por ele como bárbaro e atrasado. O que estes países vivem hoje são as consequências de mais de um século de guerras, exploração e colonialismo que minaram suas bases sociais e abriram caminho para o radicalismo que se expressa através de atentados como o da última quarta-feira.

Toda fé religiosa precisa ser fundamentada sobre uma educação humanista ética e inclusiva que ofereça valores inquestionáveis como direito à vida e à liberdade. Mas para que isso seja possível, é preciso que a resposta ao “terror islâmico” não seja simplesmente o bombardeio de países islâmicos. Só assim o leão se deitará ao lado do cordeiro e o cordeio poderá dormir.

Depois que Buda morreu, sua sombra ainda foi mostrada
numa caverna durante séculos – uma sombra imensa e terrível.
Deus está morto; mas, tal como são os homens, durante séculos
ainda haverá cavernas em que sua sombra será mostrada.
– Quanto a nós – nós teremos que vencer também a sua sombra!

Nietzsche, em A Gaia Ciência.

Um conto de duas cidades e meia

Não houve alarde ou repercussão na imprensa local, mas Manaus apareceu semana passa em uma matéria do New York Times. Dessa vez o tema não foi a floresta ou o exotismo da capital amazonense, mas a inócua guerra da polícia contra o tráfico de drogas na periferia da cidade.

Eu não conheço bem os bairros afastados de Manaus, apenas tive contato com alguns deles na minha  curta passagem pelo caderno de Cidades do jornal A Crítica. Apesar de ter visto a realidade dessa Manaus do avesso e conhecido pessoas que enfrentavam a escassez dos seus direitos mais básicos, foi impossível não sentir um estranhamento ao ver na matéria uma cidade tão diferente da que estampa nossos cartões postais.

A Manaus que saltava das fotografias não era a “Paris dos Trópicos”, nem a “cabocla risonha” dos visitantes. Tampouco a “metrópole da Amazônia” ou “o sexto maior PIB do Brasil”. Aquela era a Manaus escrota, de casebres perigosamente engatados em morrinhos de barro habitados por trabalhadores pobres obrigados a conviver diariamente com a morte e a violência. Era a cidade esquecida, de quem tem duas horas de água por dia e reza pra não perder o pouco que possui cada vez que chove.

Ver Manaus daquele jeito, despida de todo seu encanto, me fez pensar em quantas realidades convivem neste pedaço de terra às margens do Rio Negro e no quanto elas estão separadas por um imenso e aparentemente intransponível abismo social.

A cidade histórica, encantada e desiludida com a borracha, acostumada por anos ao ritmo lento de sua vida ribeirinha.

A cidade moderna, onde se proliferam condomínios de luxo, cheia de reformas, com lâmpadas de LED nos postes e um estádio padrão FIFA.

E a cidade das mortes violentas estampadas diariamente nas capas de tabloides sádicos. A Manaus dos empregados que saem de casa às 4 da manhã para se espremerem em ônibus lotados e às 7h estarem prontos a nos servir. A Manaus que não sai em fotografias, nem em comerciais da Prefeitura, que vive das migalhas que caem da mesa do distrito industrial e seus afluentes.

A primeira sobrevive na memória, nos livros, nas músicas, nos retratos em preto e branco e luta para não ter seus últimos vestígios substituídos por prédios de pastilha branca.

A segunda é a que se mostra sem vergonha pro mundo, a que dizem ser real e motivo de nosso orgulho, mesmo estando reservada a um curto perímetro semi-urbanizado.

E a terceira é uma ficção, a terceira nunca houve. É o lugar dos esquecidos, a nação dos condenados. Não é uma cidade completa, mas uma meia cidade, mero efeito colateral do “progresso”, tolerada apenas por falta de alternativa. Parece que a gente simplesmente aceitou o discurso de que somos uma cidade rica e que os bairros da periferia constituem uma outra Manaus, que não deve ser visitada ou considerada. É a Manaus de lá.

Invisível, ela segue seu curso desempenhando o triste papel que lhe restou: fornecer desastres diários para as capas dos jornais.

L’État c’est moi

O periquito faz barulho. Eu não gosto do barulho do periquito. Logo, o periquito tem que morrer. Quem ele pensa que é pra incomodar o meu café-da-manhã? Ele sabe com quem está falando?

Às vezes a gente esquece, mas Manaus é um núcleo urbano encrustado em meio a uma floresta gigantesca. Seria natural que ela fosse cheia de árvores nativas e víssemos com frequência animais passando entre os telhados das casas. Infelizmente, não é bem assim.

A floresta incomoda, insulta, nos faz lembrar de uma realidade da qual nos envergonhamos. Manaus foi construída à beira do rio, depende dele mais do que qualquer outra coisa, mas virou as costas e decidiu derrubar árvores pra abrir clareiras onde o progresso e a modernidade pudessem ser erguidos.

Trocamos nascentes e igarapés por shoppings com ar-condicionado e derrubamos castanheiras centenárias pra erguer prédio feios cercados por palmeirinhas sem graça. Envenenamos pássaros pra que o ronco dos motores possa reinar absoluto de manhã cedo e no fim da tarde.

Desde os grandes projetos de urbanização do final do século XIX, o maior esforço do governo e da alta sociedade manauara tem sido transpor um modelo de civilidade que apague qualquer sinal de selvageria da cidade. Como mostra o professor Otoni Mesquita em seu livro “La Belle Vitrine”, o objetivo das obras era mostrar como a elite dependente da borracha podia viver bem separada da floresta que a sustentava. Nosso desejo sempre foi ser a “Paris dos Trópicos”, “uma cidade de 2 milhões de habitantes” ou qualquer outra coisa diferente do que nós somos.

Essa mesma elite mantém viva até hoje a dinâmica de Casa Grande e Senzala, uma das nossas heranças mais vergonhosas. Assim como o escravo rebelde era açoitado amarrado ao tronco, a natureza insolente precisa ser castigada de maneira exemplar. Há um senhor de engenho no coração de cada um e ele ergue seu cetro imponente como o Rei Sol.

Encastelados em suas mansões com muros revestidos de porcelanato, os bons assalariados do Distrito Industrial que gostam de acreditar que são ricos impõem sua vontade sobre a natureza como um monarca subjuga seus súditos. Mal sabem eles que a guilhotina já está sendo preparada.